biografia

ANTOLOGIA

Meus primeiros versos eram tão puros,
verdadeiramente ingênuos como um dia meu olhar:
neles não se via nenhuma malícia ordenada,
nem malabarismos lingüísticos.

Tinha um amor especial por eles:
tanto que os guardei no fundo de uma gaveta
e os lia furtivamente, escondido de todos.

Outro dia, remexendo meu escritório,
reencontrei-os entre outros papéis imprestáveis:
constatei que eram românticos, melosos,
verdadeiramente ingênuos, sem malícia.

Quando os escrevi, era quase um menino
e não conhecia a teoria literária nem os grandes                                                         / poetas
e tinha vaga notícia dos homens e suas trapaças ao                                                                / viver.

Olhei-os e tive vergonha:
eram puros demais, ingênuos e sem malícia.
Rasguei-os: não os merecia o mundo
e seu autor, há muito, estava morto.

Sob o signo de escorpião, nasci em 05 de novembro de 1965, na cidade de Bacabal-MA, por um fato determinante: os meus pais moravam em Santa Inês-MA e minha mãe só confiava em um sobrinho seu que era médico em Bacabal, o doutor Juarez Almeida. Foi esse primo que me trouxe ao mundo para me entregar a ele, onde me perdi e me achei poeta.

Com poucos dias de nascido, volto para Santa Inês e ali fico até os dez anos de idade. Toda minha formação poética habita em Santa Inês. Ali está meu pathos. Ali comecei a desvendar a vida: o seu lado lúdico e brutal. Cultivei o lúdico e sublimei o brutal. Para sobreviver nas limitações do interior, tive que descobrir poesia nas coisas simples. Em Santa Inês estão os temas mais recorrentes da minha poética: a infância, meu primeiro contato com a morte, o lado social de minha poesia, meu espanto diante das manhãs luminosas e azuis. É dessa época que guardo o hábito de namorar as nuvens. Ali tomei as primeiras lições de poesia sem saber o que aprendia.

Meu pai sempre gostou de livros, e logo fui mexendo neles. Mas não havia livros infantis. Havia livros sobre animais, livros ilustrados. Esses me chamavam logo à atenção. Ainda muito cedo escrevi um "poeminha" que por ninguém ter dado bola, se perdeu, inclusive no meu ressentimento.

Com dez anos de idade, fui estudar na capital. São Luís foi meu primeiro exílio. Fui jogado numa cidade de pedra e casarões encantados e encantadores sob os quais deslizavam a luz e azulejos.  E o vento bafejava nos mirantes. Tinha a maior vontade de subir em um daqueles mirantes [...]. Me diziam que de alguns se via o mar [...] Depois me explicaram que São Luís era uma ilha. A capital começou a se encantar em mim, mas apesar de toda aquela beleza eu me sentia só e minha cidadezinha começou a doer em mim: uma dor que me acompanhará para sempre. Cada dia dói mais e só a poesia pode entender isso que em mim lateja sem explicação.

Permaneci em São Luís de 1976 até 1983, quando estudei no colégio Maristas. Ali aprendi que a poesia existia em folhas de papel num jogo máximo das palavras. Mas os professores se preocupavam mais em mostrar os poetas como vultos [...] e todos eles estavam mortos. Aqueles retratos a bico de pena que ilustravam os livros de literatura inicialmente me assustavam. Mas comecei a descobrir beleza nas palavras. Notei que os poetas tentavam dizer a beleza [...] mas eles me pareciam distantes do mundo real [...] Pareciam habitar outro mundo [...] E o que me comovia eram as coisas mais próximas: as manhãs luminosas, o azul do colégio [o edifício dos maristas sempre me emocionou], as nuvens. As nuvens sempre me pareciam flocos de algodão. Comecei pelos parnasianos e simbolistas: era uma sonoridade encantadora, mas oca. Já na adolescência descobrir os modernistas. Descobri Manoel Bandeira: foi um deslumbramento. E depois Drummond e daí comecei a me interessar por poetas estrangeiros. Ao mesmo tempo lia os poetas de São Luís: Nauro Machado, José Chagas, Tribuzi.

Mas a poesia só me falou de maneira definitiva quando li POEMA SUJO do meu conterrâneo Ferreira Gullar. Ali vi claramente que a poesia está no meio de nós: das coisas mais abjetas pode nascer a poesia. Eu já tinha essa intuição, mas nunca havia visto nada igual em texto literário. Aquilo me comoveu: a poesia está mesclada na placenta da vida. Valia a pena ser leitor de poesia: a poesia podia me dizer da vida, me fazer entender a mim e os outros.

Depois de uma breve estada em Gioânia-GO, rumei para o Recife em 1985, onde prestei vestibular para Ciências Contábeis. No ano seguinte prestei vestibular para Direito: abandonei Contábeis e conclui Direito em 1991.

Em 1995 volto ao Maranhão. Publico TRAVESSIA SEM FIM [1999]. No ano seguinte, já tinha pronto DESCOBRIMENTO DO EXPLÍCITO [2000]. Achando que tinha dado um salto poético, entendi que TRAVESSIA SEM FIM devia ser refeito. Assim escrevi SUSTOS DO SILÊNCIO [2001]. Quando em 2006 publico TEMPO EM CONSERVA.

Percebendo a existência de três livros inéditos, decidi publicar a obra reunida neste final de 2008. Em assim, GEOMETRIA DO LÚDICO é a reunião dos livros publicados e três inéditos.

Os inéditos são: A POESIA SORRINDO, uma homenagem ao poeta Mario Quintana nos moldes do seu CADERNO H; SINFONIA DA SOLIDÃO e ESCANDALOSA E LÍRICA.

ESCANDALOSA E LÍRICA é um livro que nasce com a publicação de um poema que se encontra em TEMPO EM CONSERVA. Esse poema de sugestões eróticas me levou ao desafio de escrever um livro com essa temática. E confesso que tenho um carinho especial por ele: pela dificuldade do tema e pelo desafio de não cair no vulgar. O erótico no patamar do sublime: esse foi o desafio.

Pelas dificuldades de divulgação da obra, decidi criar um site. Assim, os amantes da poesia poderão ter acesso a alguns poemas e opinar sobre eles [...] A poesia é, em mim, modo de me comunicar com o mundo. E se tem a poesia uma função, um porquê, talvez seja esse: de unir e tocar as pessoas, ao menos por um instante.

[...] e esse instante pode durar pela eternidade: essa a mágica da poesia.

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