DO CONTRA
Os ateus e agnósticos não creem em Deus, mas no acaso. O acaso, tal Deus, é onipotente, onisciente e onipresente. Eita povo do contra.
O INVENTOR DO MARKETING
Em 1940, Seu Osório, o farmacêutico, assim se referia às pílulas de vida do dr. Ross:
— Serve para tudo enquanto e outras tantas coisas ainda desconhecidas.
TROPEÇOU NA PRÓPRIA LÍNGUA
Havia uma velhota, dessas de porcelana fabricada por cirurgião plástico que na academia de ginástica adorava ficar na esteira quase pela manhã inteira. Ali falava mal de Deus, do diabo, dos presentes, ausentes, reencarnados e dos nascituros. Um dia, nem a esteira aguentou tanta fofoca e lhe arremessou com violência para longe, quando ela se estatelou no chão e quase trincou. Todos correram para socorrê-la: personal, curiosos e os todos os amigos de fofoca. Um desafeto seu, amenizou o trágico e desejado ocorrido: — Não foi nada: só tropeçou na própria língua.
CHARME DAS VANGUARDAS
Tinha escrito um poema prosaico: a ser sincero, sisudo mesmo, meio chato, desses cujo destino mais digno é a lixeira. O diagramador – não sei bem o porquê – desalinhou toda a estrutura do texto. Ficou parecendo um poema concretista: certo é que não o salvou do medíocre, mas lhe deu ao menos o charme das vanguardas.
VARA DE FAMÍLIA
Mal Sua Excelência havia adentrado ao fórum foi abordado por um caboclo:
— Doutor, vai ter a ódiença do divórcio litigioso do compadre Pedro Trovão?
BONECA DE PORCELANA
A velhota, dessas de porcelana fabricada por cirurgião plástico, estava na companhia de sua netinha de dois anos e ao encontrar com um conhecido que estava com sua mulher, perguntou: — Ah é sua mulher?! Pensei que era sua filha. O senhor de cabelos grisalhos olhou para a netinha: — Pensei que era sua avó. Mas tão inconveniente assim vejo que é sua filhinha, essa boneca de porcelana a lhe ensinar maus modos. Ponha-a de castigo e a proíba de fazer plástica: perdeu o único neurônio.
AO MALIDICENTE
— O que de mais precioso há em toda a tua biografia é o silêncio.
INGRATO
E eu a reclamar do tamanho das minhas orelhas, única herança de meu avô.
DIDÁTICA DO LIVRO ARBÍTRIO
Em princípio considerei que a tese do livre arbítrio continha um erro de base. Não escolhi nascer e muito menos gostaria de partir desta vida sem anuência. Depois de muito meditar, terminei por compreender melhor: o livre arbítrio é o recheio entre o começo e o final da nossa jornada. O livre arbítrio é, pois, como um sanduíche: Deus nos dá apenas duas fatias de pão. Agora, o recheio é por conta do cliente.
INSENSIBILIDADE EM PLENITUDE
O autor, ao convidar uma conhecida para o lançamento de seu livro em caráter beneficente, ouviu: — Só não vou porque eu não tenho sensibilidade para poesia. O autor, agastado: — Não culpe a poesia, seu caso é de insensibilidade em plenitude.
INCÊNDIO
Os olhos de Beatriz incendeiam as manhãs de arco-íris.
INICIAÇÃO
O leitor me confessou que não conseguia entender poesia. Foi quando indaguei empolgado: — Você ainda não conhece o curso do Caderno H do Mario Quintana?
EGO
Fiz as melhores amizades na vida literária e as grandes inimizades a reboque.
SUPERESTIMADAS
A morte é o alarde do ponto final, sua vingança sobre as reticências.
PERSEGUIDOR
Meus poemas sabem de meu transtorno obsessivo compulsivo. Sempre que os encontro, noto uma falta ou uma deselegância. Elimino um verso, faço nova diagramação, incluo uma palavra nova. Meus poemas só se livram de tal perseguição graças ao editor. E ainda assim vivem sobressaltados com receio da nova edição.
PARÁFRASE
Tem-se na paráfrase a excludente de ilicitude do plágio.
ATRAVÉS
Quando o aluno disse que conheceu a poesia sacra através da igreja, o professor de literatura medieval pôde ouvir todos os vitrais da catedral de Chartres se partindo.
COISA DE CIDADE GRANDE
Tio Juarez levou seu vaqueiro para se consultar e fazer exames em Recife. O vaqueiro não conhecia a capital pernambucana nem os ônibus elétricos o que causou este comentário: — Doutor Juarez, aqui eles começam a limpar os fios é cedo, não é?
LEI DA COMPLETUDE
O que seria da arte não fossem os abismos da alma?
SABEDORIA JURÍDICO-POPULAR
Era um juiz empertigado e na sua audiência inaugural na cidadezinha do interior, o lavrador trêmulo diante de Sua Excelência principiou o depoimento: — Pois rapaz, o fato foi (…). De imediato o magistrado soberbo interrompeu: — Alto lá: aqui não tem rapaz. Sou Vossa Excelência. O caboclo quase teve um passatempo e já se imaginou na prisão perpétua. Tentou o vocativo, em vão: — Sua, (…). E sua limitada fonética não lhe permitia pronunciar tão complicada palavra. Maldita hora em que aceitou ser testemunha. Começou a suar e empancou: — Sua (…). Sabe quando se engasga com macarrão: a coisa nem entra e nem sai. Esta era a situação. E retomou a agonia: — Sua Ex…In…. E num impulso, sabe-se lá de onde, talvez de um anjo galhofeiro, o caboclo derramado em suor, conseguiu dizer: — Sua Insolência!
RUÍDOS NA COMUNIÇÃO DEMOCRÁTICA
O ouvidor do governo não consegue escutar o porta-voz da oposição.
SENSOS
Um sujeito dado a patuscadas – como diria Machado de Assis – contou uma piada idiota a dois irmãos gêmeos. Um deles foi às gargalhadas mais altas e efusivas; o outro permaneceu na sua total indiferença. O pretendente humorista quis saber o porquê da situação. O gêmeo sisudo esclareceu: — A ele foi dado todo o senso de humor: ri de toda e qualquer idiotice, já a mim me tocou todo o senso do ridículo.
ESPIONAGEM
O girassol passou o dia inteiro seguindo o sol, mas com a intenção de espionar a lua.
FALSA HUMILDADE
Enquanto ia lendo o Caderno H – na verdade mastigando bem devagar – Mario Quintana me cochichou que o simples adora ser sofisticado se fingindo de humilde.
PÓS-VERDADE
Adoro ver alguém mentir, mas mentindo com tal convicção que aquele pequeno receio de ser aquilo mentira vai se diluindo quanto mais lhe aprovam os ouvintes. Engraçado, não sei o porquê, mas lembrei agora das ditas redes sociais

