CANTO EUFÔNICO Se ao invés de ter estudado OSPB, o colégio oferecesse canto eufônico, teria ao menos um elemento de força sinestésica para tentar um poema. NENHUM POEMA SE PERDE Antes me preocupava muito com poemas perdidos no labirinto da memória: mas os poemas – tal como todas as teias da vida – não se perdem: outros poetas os acharão. […]
Ler maisRESULTADO DO TESTE VOCACIONAL ─ Bem, você tem um forte olhar fotográfico. ─ Será que por isso cometi o desatino de ser poeta? COR DA ESPERANÇA O alaranjado devia ser a cor da esperança: é a cor preferida da aurora. SEM ESPELHO Por séculos de guerras e tanta maldade quando lembra que fez os seres humanos à sua imagem e […]
Ler maisa Socorro Santos Digo Deus, dizes poesia: é tudo tudo tudo epifania. Tantos os deuses em derivação: águaRenoir florprimavera Rimbaudamor (…) e o mistério de permeio espreitando o encantamento. Talvez a trindade em Cristo ou a unidade polifônica do universo. Ou ainda uma tarde desperdiçada em azul indo ao banal: transfiguração da realidade rumo à vida. Deus e poesia se […]
Ler maisVERSÕES A verdade é uma versão sem o charme da mentira. INDIFERENTE a Isa Tavares Uma amiga dileta me saudou, pela manhã, com esta mensagem no whatssap: “Tudo que me faz bem, eu guardo em meu coração. O resto? Apenas passa.” Respondi: — Meu coração transborda poesia junto com o […]
Ler maisa Clélio Silveira Tarde de azuis e vento: cheiros cores sabores que o tempo não dizima. (…) eu era um menino entre meninos e ouvia o prefixo do Cine Art Palácio. (…) era domingo eu ia ao cinema sonhar: ali mesmo em Santa Inês, ali mesmo na rua da Raposa, ali, naquele mundo debulhando o simples – que não consigo […]
Ler maisa Fernando Pontes Desconhecem o que seja esquerda ou direita, sabem da fome, do desemprego, do descarte. O que lhes dizem o dólar, as comodities? O que lhes importa o chique sul global? Na folha de papel, os direitos fundamentais quedam opacos, indiferentes ao desamparo. Os inconvenientes ocupam ruas e avenidas: silenciam o discurso protocolar do governo, alimentam as […]
Ler maisAquelas manhãs de Santa Inês Aquelas manhãs de Santa Inês Aquelas manhãs de Santa Inês gaguejam a beleza a um inseguro menino em meio ao sol e ao improvável, vez que tudo ainda não tinha formas definidas e o soprar do vento parecia brincar de infinito que tudo seria de novo amanhã e assim até o fim dos tempos, mas […]
Ler maisMinha mãe puxava água do poço numa polia e passava as roupas num velho ferro de brasa; tudo em sua vida era o ciclo de noites e dias – as noites eram apenas noites e suas lamparinas, os dias somente dias, o labutar debaixo do sol. Por seu turno, meu pai habitava idêntico palco: esmerilava o sol dentro dos negócios […]
Ler maisDe repente o opaco toldou o azul e o mundo em lúgubre se tornou. Em verdade não se deu de repente (eis a tecitura de milhares de anos). É tapeçaria urdida na complexidade de natureza de abismos insondáveis. Estamos, Schopenhauer, na prisão?, em céu aberto, no vazio do íntimo? A morte sempre à espreita, em foice, a descolorir a vida, […]
Ler maisCÚMPLICE Somente o poema é quem me diz o tanto de silêncio em que me guardo. VIGÍLIA ETERNA Durmo o quanto posso: sabe-se lá se a morte não é a vigília da eternidade. ENTRE O LOUCO E O LÚCIDO: A POÉTICA Hora extra em que o olhar se perde de si mesmo e se abandona ao mundo em busca de […]
Ler maisA brisa embala a tarde em pleno furor do dia vindo do oceano em direção à terra. Ônibus e homens se misturam a gases buscando respirar o expediente bancário, a cotação do dólar e do barril de petróleo. (há um derramamento de óleo em Santos que a Marinha não consegue estancar). E a tarde já não é a tarde, senão […]
Ler maisQUESTÃO PREJUDICIAL Para se entender as mulheres faz-se necessário estudar a brisa e os terremotos. PORNOGRAFIA POÉTICA LUSITANA É tão pornográfico que quando pronuncia a palavra fado, imagina as vogais a dançar. NO FIM DO TÚNEL Nos porões de minha alma, há abismos insondáveis, onde um vaga-lume pisca, pisca, desesperadamente pisca sem direção e só a poesia pode salvá-lo. O […]
Ler maisa Lourival Serejo Apenas eu e bia na sala do cinema em Teresina (sábado,17 de agosto de 2024, sessão das 22 h). O filme? O Mensageiro, direção de Lúcia Murat: um drama ambientado em 1969, época do AI-5. Apenas um filme brasileiro ignorado pela mídia (nada de novo: só o Brasil indiferente ao Brasil). Fiquei comovido na presença das […]
Ler maisNa rua da Estrela, em São Luís do Maranhão, uma enorme aranha sobre a lata de querosene terce vagarosamente o ócio, alheia ao tempo cultiva na tarde a crônica obscura da província; no varejo – ignorando Adam Schmidt e Marx – o quitandeiro negocia as horas em mercadorias (sabão, sal, açúcar, aguardente, fardos de farinha assistem os rudimentos da economia […]
Ler maisPor sobre a cidade, em plena segunda-feira, o arco-íris sorri entre despojado e irônico, observando a vida cá embaixo: ônibus, buzinas, semáforos, esquadrinham o caos em meio à pressa e à angústia. O que se tem por vida, ao arco-íris lembra a morte lenta e indiferente da beleza (há tantos corpos vagando no vazio). A vida toda de adjetivos descartáveis […]
Ler maisNão, a vida não é movimento uniforme: seda, brisa, delicadezas, cristal e beleza – A vida é. E talvez agora tenha dito tudo: total imperativo em estado de natureza. A vida é coice, desconcerto, desencanto – artimanhas do acaso, desmantelo da lógica, um facho descontrolado em busca do ser vazado de dúvidas e perguntas em aberto, o humano lançado objeto […]
Ler maisTRADUTOR DOS POETAS O cantar solitário do galo traduz a angústia e esperança dos poetas. CALENDÁRIOS Os calendários tentam confundir o tempo (…) em vão. ESPANTO DA PLACIDEZ (…) as nuvens vivem entre a placidez e o espanto (…) DELIVERY Na janela as nuvens me trazem surpresas ao correr do dia. MIRAGEM Sem simpatia a beleza é somente miragem. MISTÉRIO […]
Ler maisa Luiz Henrique Luiz Henrique, chegaste em 11 de setembro (tu não sabes, mas nesse dia o mundo parou). Nessa data o coração da América foi atingido pelo terrorismo que joga sombras em toda luz (o ódio gera o ódio e dele é escravo e senhor). Era 11 de setembro em Santiago, no Chile, quando Allende tombou solitário ao […]
Ler maisAo chegar ao Rio de Janeiro em 1951 –, o poeta Ferreira Gullar trazia um delírio iniciado na úmida São Luís do Maranhão de sobrados em azulejos e brisas ao vazio. Mas qual delírio? A luta corporal na poesia. O des man te lar da lin gua gem. Tercia um livro que não um livro, mas a vida em carne […]
Ler maisSempre tive dificuldades com os palácios: neles os meus versos tímidos, desalojados; ali a vida plástica, abstrata, asséptica, longe, longe das ruas, distância segura do povo; povo – a palavra toda oca. Pobreza, inibidor de ousadia, trago comigo: desde a infância as pombas me apavoram – sempre me souberam opacas, frias e tristes, tristes, protocolares como um relógio de ponto, […]
Ler maisSou o poeta da flor e dos espinhos: lírico, romântico, louco por Chopin; amo as crianças e os amigos do azul, os caçadores de brisa e de nuvens, por isso gosto de olhar as fragilidades com ternura e desprezar toda matéria, posto que fugaz, ignorada no eterno; e o eterno é só esse instante cintilante, que agora passou diante dos […]
Ler maisTRADUTOR DOS POETAS O cantar solitário do galo traduz a angústia e esperança dos poetas. CALENDÁRIOS Os calendários tentam confundir o tempo (…) em vão. ESPANTO DA PLACIDEZ (…) as nuvens vivem entre a placidez e o espanto (…) DELIVERY Na janela as nuvens me trazem surpresas ao correr do dia. MIRAGEM Sem simpatia a beleza é somente miragem. MISTÉRIO […]
Ler maisPrimeiro escrevi uma palavra. Qual palavra? A palavra vermelho. Aí paralisei. Congelei – Pensei na teoria literária, também na lógica. A palavra vermelho delimitou o poema, pois restringiu as expectativas do leitor – não poderei, por exemplo, invocar o girassol, posto que esse amarelo. (e ninguém entenderia um girassol vermelho). E se eu trocasse o vermelho pelo amarelo? Outras seriam […]
Ler maisGoya pintou o sombrio Aves Muertas: em que pensava ele quando o pintava? Nunca se saberá exatamente. Os críticos de arte ofertam algumas pistas: Goya, precursor da pintura contemporânea, ícone da vanguarda pictórica do século XX, ficou impactado pela Guerra Peninsular ou Guerra da Independência Espanhola (a Espanha a lutar contra Napoleão, seu antigo aliado e logo desafeto). A guerra […]
Ler maisPLENO EMPREGO NO MERCADO DA MALDADE No mundo da maldade há gente capaz de tudo e ainda sobre gente. ESPARTILHO A métrica é o espartilho do verso. A LINGUAGEM DOS OLHOS Quando adolescente ficava treinando o que dizer às mulheres. Quanta bobagem: as mulheres falam a linguagem dos olhos. AO MAR Colocar um poema na internet significa que ele cairá […]
Ler maisOuço vozes nos lugares mais insólitos (penso que é um anjo a andar comigo). Por certo um desses anjos galhofeiros, pois às vezes um tanto inconveniente: não é dado a respeitar as convenções (fala nos concertos, no meio da noite, durante as aulas, no cinema, no bar). Seria apenas um? Não tenho certeza. Por vezes parece um coral agitado – […]
Ler maisa Sebastião Moreira Duarte Na poesia, a palavra esconde a palavra mas não a emoção que dela aflora. Se digo que a manhã trouxe um perfume é possível está escondendo no perfume a palavra flor, mas não a flor que exala o ar. O poeta quer apenas comover e só dispõe das palavras para dizer o […]
Ler maisMEMÓRIAS ─ E esse olhar tão distante, até parece no passado, filho. ─ (…) o que sobre mim voa e lampeja, mãe, são memórias. EXTRAVIO Ao correr da vida perdi tempo demais com os calendários. ANTES DE JUNG O que ainda não é símbolo espera por um artista. LABIRINTO Sou o labirinto de uma existência em busca de um sentido. […]
Ler maisQuintais telúricos das manhãs de Santa Inês partida e o vento a farfalhar na memória as folhas que caíram e se perderam entre a infância e o abismo do tempo. Naquele tempo eu poderia ser pássaro ou nuvem: e fui. E o que restou, além de matéria para um poema? Onde vocês? Deutes? Nonatim? Valmir? Jean? Hélio? Ném? Valberto? Neguim? […]
Ler maisTESOURO São Luís com suas ruelas, seus becos, seus túneis, seus mirantes, seus sobrados vazios é uma cidade que esconde a si mesma. BUMBO Quando o telefone toca no meio de um verso, sinto o bumbo soar no concerto de câmara. VARIAÇÕES PARA UM TEMA A chuva é um poema épico; o chuvisco, uma sonata. JUDAS Os concubinos da rua […]
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