VERSÕES
A verdade é uma versão sem o charme da mentira.
INDIFERENTE
a Isa Tavares
Uma amiga dileta me saudou, pela manhã, com esta mensagem no whatssap: “Tudo que me faz bem, eu guardo em meu coração. O resto? Apenas passa.” Respondi: — Meu coração transborda poesia junto com o que passa.
DAS PONTAS DO TEMPO
1968 foi o ano que não terminou e 2020 aquele que não começou. E a partir de então ficou provado que o tempo não tem começo nem fim.
EXCEÇÃO
Somente o sol sabe gritar sem perder a sobriedade e a elegância.
DESPERTADOR
O galo tem por cover o despertador com canto metálico e sem o elã do arcadismo.
AMOR UNIVERSAL
Era tão ciumento(a) que amor universal significava a maior suruba do planeta.
MEGALOMANÍACO
— Como podem perceber, caríssimos, Aristóteles pensava como eu.
INCONSCIENTE COLETIVO
João, pescador de riachos, foi a São Luís e ficou assombrado quando viu o mar:
— Santo Deus!, nunca imaginava essa imensidão de água no açude do governo.
LÓGICA DA PRECIPITÇÃO
Manuel encontra Martim em uma praça ao fim da tarde, em Lisboa.
— Ora, o que estás tão entretido a ler?
— Este é um livro maravilhoso: chama-se lógica.
— Pois então o que venha a ser lógica?
— Bem: se tens um aquário em casa, tens criança.
— Sim, sabes tu que tenho aquário e filhos.
— Logicamente, pois, não és homossexual.
— Fantástico! Dá-me esse livro por um cadinho
Martim mal abre o livro, quando chega Joaquim.
— Ora, o que estás tão entretido a ler, Martim?
— Este é um livro maravilho: chama-se lógica.
— Pois então o que venha a ser lógica?
— Bem, tens um aquário em casa?
— Não, respondeu Joaquim perplexo.
— Então és homossexual. Isto é lógica.
LÓGICA À BRASILEIRA
E o português espantado: — Só vi isto no Brasil: bicha única para caixa único.
DESEJO DOS EXTREMOS
O desejo mais íntimo dos extremos é o beijo ardente.
A VIDA ALHEIA
A vendedora ficou o mês intrigada: — Por que o cliente careca comprou um pente?
MANDOU A REAL
O prepotente aborrecido atacou: — Escuta aqui: você sabe com quem está falando? E o estafeta: — Com um futuro cadáver. E infelizmente isso não é uma ameaça.
ANSIEDADE
A ansiedade teima em ver o amanhã antes da aurora.
CRIAÇÃO DO BRUXO
O bruxo do Cosme Velho criou os olhos de Clarisse Lispector em 1899, quando Dom Casmurro fitou, devagar, os enigmas na alma de Capitu.
COXIA
Muitos literatos vão à academia em busca da imortalidade e da glória. Na coxia, a eternidade sorri entredentes saboreando o esquecimento.
O DIABO É O SANTO
Por falta de padres, a comunidade Fé em Deus resolveu construir uma capela. E trabalharam em mutirão durante um ano, vez que os recursos eram escassos. A construção tinha sido promessa do líder da comunidade, Raimundo dos Santos. Ia sendo erigida a capela e aumentavam as divergências sobre o santo padroeiro. Terminada a construção era hora de combinar sobre a cerimônia de inauguração. O padre veio de uma cidade distante, elogiou a bela capela, inteirou-se da situação. Perguntou, então, qual afinal era o santo que a comunidade elegeu como padroeiro. — São Benedito! Santa Bárbara! São Francisco de Assis! São Francisco Xavier (…) – em algazarra, bradavam todos ao meu tempo sem que ninguém se entendesse. O padre interveio com energia e pediu paz, que se acalmassem, aquilo era feio. — Tá vendo, padre, o diabo é o santo – disse Raimundo dos Santos muito contrariado.
LITERATURA E VIDA LITERÁRIA
Os homens passavam alheios aos dois sujeitos no banco da praça. O velho bardo olhou demorado para o jovem Mario Quintana e lhe indagou: — O que pretendes com as letras: literatura ou vida literária? — E tem diferença? – indagou o neófito com toda ingenuidade. — Se queres literatura, vai ter com a beleza todos os dias. O jovem Mario Quintana já confuso pelo silêncio do velho bardo: — E se optar pela vida literária? –, indagou ansioso. — Precisas ir urgente ao palácio – disse peremptório. Um passarinho pousou junto aos poetas: teria sido um presságio?
ETERNA VOLÚPIA
Trago esta dúvida: não sei se sou viciado em doce ou se o doce é viciado em mim. Fato é que ao nos avistarmos ocorre aquela entrega com total volúpia dos amantes.
FALTA DE VOCAÇÃO
Andei pensando em ser político, mas depois de muito meditar, desisti por pura vocação: não consigo falar mal de ninguém e nunca aprendi ser cabotino.
REVOLTA
Vinha eu com minha sobrinha, quando um conhecido me saudou: — Olá, poeta! Indagou por que me chamou de poeta: — Por causa das tiras que escrevo no jornal. — Ah, aquilo é poesia?! E meu professor querendo que eu entenda Shakespeare!
A DESGRAÇA
A desgraça da poesia ocorreu quando alguém disse que ela é feita de versos.
ESTRAGA PRAZER
Escrevi o poema convicto de querer consolar o leitor, mas o crítico o convenceu de que desejei lhe atordoar.
TERAPIA DO ECO
Tenho comigo esta verdade: melhor que pedir a opinião dos outros é falar sozinho: galo que segue pato morre afogado, mas quem fala sozinho dificilmente enlouquece.
PÍLULAS MARIO QUINTANA
Diante do cenário atual, passei a ler os textos do Caderno H do Mario Quintana: são pílulas antidepressivas que tomo e começo a ver vejo passarinhos coloridos.
EMPOLADO
Tão empolado o orador que no final do discurso houve um surto de catapora em toda assistência.
CASMURRO
Ao saber que a Academia Brasileira de Letras tinha recusado Mario Quintana por três vezes, Machado de Assis ficou casmurro por dias acompanhado de um passarinho.
PARENTESCO
Mario Quintana é aparentado de Machado de Assis por parte das entrelinhas.
SHERLOCK HOLMES
Esse desfilar de coisas miúdas e repetitivas que veem te visitam ao correr dos dias e noites, enquanto aguardas ansioso um acontecimento extraordinário, chama-se vida.
SUGESTÃO DE TESE À SOCIOLOGIA
Os seres humanos têm feito um mal terrível às redes sociais.
BESTOLOGIA
Trata-se do método científico descoberto pelos usuários das redes sociais. Com ele os juristas entendem de astrofísica; os médicos de teoria econômica; as donas de casa de hermenêutica constitucional; o padeiro de física quântica e o estagiário de todo o cosmo.
BAUDELAIRE E FLECHA DE OURO
a Hildeberto Barbosa Filho
Hildeberto Barbosa Filho, numa crônica deliciosa, Meu cavalo Baudelaire, explica por que colocou o nome do festejado poeta francês no seu cavalo. Acontece que Hildeberto quando o fez já tinha domínio da literatura e da crítica literária. Fiquei a pensar e lembrei que também eu tive um cavalo quando criança. Dei a ele o nome de Flecha de Ouro: tinha pelo amarelado e era arrisco. Naquele tempo confesso que não conhecia literatura nem muito menos crítica literária, mas a poesia já me fazia de alvo.
ORAÇÃO DO PAI NOSSO SEM SUPEREGO
Minha filhinha ao rezar a oração que Cristo nos ensinou, retirou o superego: “E seja feita a nossa vontade assim na terra como no céu, tá ouvindo papai do céu?”
INFINITO
Muito melhor que escrever um poema é me deter demorado na página em branco, porque lançada a primeira palavra já começo a me perder do infinito.
MELHOR CANDIDATO
Era tempos de eleição e ao meu pai nunca foi sedutora a política partidária. Naquela manhã, na Rua do Comércio em Santa Inês, só disso se tratava. E Raimundinho, o inconveniente, curioso, quis saber em quem papai votava: — E aí, meu filho, você tá apoiando quem nesta peleja eleitoral afogueada? Papai num repente inspirado talvez pelo Espírito Santo: — Estou com Deus. Raimundinho sem perder o rebolado como dantes se dizia: — Melhor candidato, meu filho, e nunca vi perder uma só eleição.

